Quando contamos uma história de amamentação que se prolongou por vários meses, é fácil criar uma narrativa baseada apenas em desejo, persistência e força de vontade.
Eu quis amamentar. Eu me dediquei, busquei ajuda e fiz escolhas para continuar.
Mas hoje consigo enxergar que contar a minha experiência apenas pela perspectiva da persistência seria injusto.
A amamentação só foi possível porque, além do meu desejo, eu tive acesso à informação, encontrei profissionais que nos orientaram, recebi apoio do meu marido e tive condições concretas para colocar essas orientações em prática.
Sem essa rede, provavelmente a nossa história teria sido diferente.
O que eu imaginava sobre a amamentação
Desde que descobri a gravidez, comecei a buscar muita informação.
Eu estava longe do meu país, tinha muitas dúvidas e sabia que existiam diferenças importantes na forma como o atendimento em saúde acontecia. Por isso, quis me preparar para compreender o pré-natal, acompanhar as decisões e participar ativamente de todo o processo.
Estudei sobre gestação, parto, puerpério e introdução alimentar.
Eu sabia que a amamentação poderia trazer desafios. Não imaginava que tudo seria necessariamente fácil, mas, no fundo, acreditava que seria um processo mais natural e intuitivo.
A amamentação não me causava o mesmo medo que eu sentia em relação à gestação e ao parto. Talvez por isso eu não tenha me aprofundado tanto nesse tema quanto nos demais.
Meu desejo era conseguir manter a amamentação exclusiva até os seis meses. Tudo o que viesse depois seria um ganho a mais para nós.
Eu sabia que poderia encontrar dificuldades.
O que eu ainda não compreendia era o tamanho da complexidade que pode existir por trás de uma amamentação.
Os primeiros dias e uma mudança inesperada de prioridade
Quando minha filha nasceu, ela foi colocada no meu peito.
Nos dias seguintes, ainda na maternidade, percebemos que ela não tinha uma pega muito boa. Recebi ajuda de consultoras de amamentação, que nos orientaram e buscaram ajustar essa pega.
Depois, fomos para casa e eu continuei amamentando.
Quando ela estava com cinco dias de vida, aconteceu algo que mudou completamente aqueles primeiros dias.
Ela havia acabado de mamar e dormia no meu colo quando percebi que seus lábios estavam ficando arroxeados. Avisei meu marido e mexi nela. A cor voltou, mas estávamos usando uma meia de monitoramento e o alarme indicou uma queda na saturação.
Corremos para a emergência.
No hospital, a saturação voltou a cair. Em uma dessas quedas, ela precisou ser entubada e foi encaminhada para a UTI.
Ela permaneceu seis dias na terapia intensiva e mais dois dias no quarto antes de receber alta.
Durante esse período, ficamos com ela o tempo todo. Passamos noites sem dormir, dividimos uma poltrona e atravessamos dias de muito medo e incerteza.
Em meio a tudo isso, também precisávamos pensar em como alimentá-la e em como preservar a produção de leite para o momento em que ela pudesse voltar a mamar.
Preservar o leite enquanto ela estava internada
Durante a internação, uma consultora de amamentação me explicou que eu precisaria fazer a ordenha aproximadamente a cada duas horas, inclusive durante a noite, para tentar manter a produção.
O hospital deixou uma bomba de ordenha comigo.
E foi assim que passei aqueles dias: ao lado da minha filha na UTI, vivendo toda a tensão da internação e, ao mesmo tempo, acordando repetidamente para retirar leite.
Quando ela foi extubada e pôde voltar a tentar mamar, percebemos que ainda não tinha força suficiente na sucção.
Ela fazia o movimento no peito, mas não conseguia retirar leite de maneira efetiva.
Uma fonoaudióloga avaliou a mamada e explicou que, daquela forma, ela não estava conseguindo se alimentar. A orientação foi retornar à sonda e evitar a mamadeira.
Depois dessa avaliação, o André conversou com um dos enfermeiros e perguntou se poderíamos oferecer o leite na mamadeira e se o hospital conseguiria fornecê-la.
O enfermeiro explicou que, se esse fosse o nosso desejo, poderíamos fazer dessa forma.
Naquele momento, eu estava descansando. O André veio conversar comigo com bastante cuidado, porque sabia o quanto eu desejava continuar amamentando e talvez imaginasse que eu pudesse enxergar a mamadeira como uma ameaça a esse processo.
Mas eu não precisei pensar duas vezes.
Assim que ele me contou, eu disse que queria a mamadeira.
Naquele momento, o que realmente importava era que a nossa filha conseguisse se alimentar de forma efetiva.
Continuar amamentando ainda era um desejo, mas já não era a prioridade acima de tudo. A prioridade era garantir que ela recebesse o alimento de que precisava.
Por isso, começamos a oferecer o leite na mamadeira e continuamos colocando-a no peito sempre que era possível.
Essa não foi uma decisão contra a amamentação. Foi uma decisão a favor da alimentação e da segurança da nossa filha.
Nos poucos dias em que ela esteve em casa antes da internação, havia perdido mais peso do que o esperado.
Eu comecei a temer que o episódio que a levou à UTI pudesse ter alguma relação com ela não estar conseguindo se alimentar adequadamente.
Eu não sabia se essa relação realmente existia, mas o medo passou a acompanhar todas as minhas decisões.
Diante do que estávamos vivendo, a amamentação pareceu muito pequena.
Se ela nunca mais conseguisse voltar ao peito, aquilo não seria um problema para mim. Eu queria que ela estivesse viva, segura e bem alimentada.
Ao mesmo tempo, como ela não recusava o peito, eu queria continuar oferecendo e observar o que seria possível.
Durante praticamente todo o primeiro mês, mantivemos uma rotina de mamadeira e peito. Anotávamos quantos mililitros ela tomava e, depois, eu também oferecia o peito.
Naquele momento, saber a quantidade de leite que ela estava recebendo me trazia segurança. No peito, eu não conseguia visualizar quanto ela consumia e tinha medo de que não fosse suficiente.
Até que uma enfermeira com experiência em amamentação observou minha filha mamando e disse que a pega estava boa e parecia efetiva.
Pode parecer uma observação simples, mas aquilo me deu uma segurança que eu ainda não tinha.
A partir daí, comecei a considerar a possibilidade de oferecer apenas o peito.
A construção da segurança
Nós havíamos comprado uma balança e pesávamos nossa filha duas vezes por semana. Assim, conseguíamos acompanhar o ganho de peso e ter algum parâmetro para decidir se seria necessário voltar à mamadeira.
Ela também era acompanhada pelo pediatra.
Com essa combinação de observação, acompanhamento profissional e monitoramento, comecei a oferecer somente o peito.
Aos poucos, a amamentação se estabeleceu.
Ela ganhou peso, cresceu e conseguimos seguir em livre demanda, com amamentação exclusiva até os seis meses.
Depois da introdução alimentar, continuamos amamentando.
Quando ela estava com um ano e dois meses, iniciamos o desmame noturno. Mais uma vez, o apoio do pai foi fundamental. Desde então, quando ela desperta durante a madrugada, é ele quem a atende.
Seguimos com a amamentação durante o dia e nos preparamos, aos poucos, para o desmame completo.
O que realmente tornou essa história possível
Olhando para toda a nossa trajetória, fica claro que essa história não foi possível apenas porque eu decidi amamentar.
Eu recebi informações importantes nos momentos em que não sabia o que fazer.
Tivemos profissionais avaliando a sucção, a pega e a alimentação.
Tivemos acesso à bomba de ordenha durante a internação e também em casa.
Conseguimos comprar uma balança para acompanhar o peso.
Tivemos acompanhamento pediátrico.
E eu tive o apoio do meu marido.
Ele recebeu três meses de licença-paternidade, e isso fez uma enorme diferença.
Durante a madrugada, precisávamos retirar o leite, aquecê-lo, colocar na mamadeira, alimentar o bebê, lavar tudo e ainda oferecer o peito.
Era uma rotina extremamente cansativa, física e emocionalmente.
Éramos apenas nós dois. O fato de ele poder estar presente, dividir as tarefas, me apoiar e ter tempo para aprender a ser pai foi fundamental para a nossa família.
A informação foi importante, mas não teria sido suficiente sozinha.
Não bastava alguém me orientar a retirar leite a cada duas horas. Era necessário ter uma bomba disponível. Era necessário ter tempo, apoio e condições físicas e emocionais para seguir aquela orientação.
Nós tivemos recursos e oportunidades que muitas famílias não têm.
Reconhecer isso não diminui o meu esforço. Apenas coloca a minha experiência dentro do contexto real em que ela aconteceu.
Amamentar não depende apenas da mãe
Quando falamos sobre amamentação, é comum destacar seus benefícios e incentivar as mães a persistirem.
Mas a amamentação é um processo complexo, que pode ser atravessado por questões físicas, emocionais, clínicas, familiares, sociais e econômicas.
Não basta perguntar se uma mulher quer amamentar.
Também precisamos perguntar:
Ela recebeu informações claras?
Ela tem acesso aos profissionais de que precisa?
Consegue descansar?
Tem alguém dividindo com ela a responsabilidade pelo cuidado?
Possui tempo e recursos para colocar as orientações em prática?
Está física e emocionalmente bem para continuar?
Apoiar a amamentação não é apenas ensinar uma técnica. É construir condições para que aquela mãe possa viver essa experiência da forma como deseja e dentro do que é possível para sua realidade.
Isso exige um olhar multiprofissional, mas também uma comunicação integrada entre os profissionais.
Cada orientação precisa considerar não apenas um aspecto clínico isolado, mas a mãe, o bebê e a família como um todo.
Quando não acontece como o esperado
Mesmo com toda a rede de cuidado que tivemos, a amamentação poderia não ter se estabelecido.
Poderia não ter dado certo.
E isso não significaria que eu não quis o suficiente ou que não me dediquei.
Existem alternativas seguras para garantir a alimentação, o crescimento e a saúde da criança. A saúde da mãe também precisa fazer parte das decisões.
O puerpério pode ser uma fase extremamente difícil e, em muitos momentos, avassaladora. Exige uma força física e emocional que nem sempre está disponível, principalmente quando a mulher está cansada, com dor, com medo e tentando compreender uma realidade completamente nova.
Por isso, não deveríamos transformar a amamentação em mais uma medida de sucesso ou fracasso materno.
Uma mãe não precisa de mais cobrança.
Ela precisa de cuidado.
Uma rede que sustenta a mãe, o bebê e a família
Eu não consegui amamentar porque fiz tudo sozinha.
Consegui porque, nos momentos em que não sabia o que fazer ou não tinha forças para fazer sozinha, encontrei informação, apoio, recursos e pessoas que sustentaram esse processo comigo.
Fortalecer a amamentação também significa fortalecer a rede que existe ao redor da mãe.
Significa oferecer orientação sem julgamento, escutar as prioridades da família, integrar os diferentes profissionais e criar condições reais para que as orientações possam ser seguidas.
Mais do que dizer que entendemos como esse período é difícil, precisamos pensar de forma proativa em como facilitar a vida da mãe, do bebê e da família.
Porque a responsabilidade por um processo tão complexo nunca deveria estar apenas sobre os ombros da mãe.
Também compartilhei essa história em vídeo, contando com mais detalhes os desafios que vivemos e o papel da família e dos profissionais ao longo desse processo.
Assista ao vídeo “Minha história com a amamentação: o que tornou possível continuar” no canal da Mais Terapias no YouTube.