Uma criança consegue produzir corretamente um determinado som durante a sessão.
Um adulto ganhou amplitude de movimento depois de algumas semanas de fisioterapia.
Uma pessoa consegue executar uma tarefa quando recebe orientação do terapeuta.
Todos esses resultados podem representar avanços importantes.
Mas aí vem uma pergunta importante:
O que mudou na vida dessa pessoa por causa disso?
A criança passou a ser mais compreendida quando conversa com outras pessoas?
O adulto voltou a realizar alguma atividade que havia deixado de fazer?
Aquela habilidade aprendida durante a terapia aparece também em casa, na escola, no trabalho ou em outros ambientes?
Nem sempre uma melhora observada clinicamente se traduz imediatamente em uma mudança no cotidiano.
E perceber essa diferença pode transformar a maneira como construímos metas terapêuticas.
Resultado clínico e resultado funcional não são a mesma coisa
Na reabilitação, precisamos acompanhar alterações específicas. Força, mobilidade, equilíbrio, linguagem, coordenação, atenção, comportamento, desempenho cognitivo e tantas outras medidas ajudam o profissional a compreender a evolução e tomar decisões clínicas.
O problema não está em medir essas coisas.
O problema aparece quando elas se tornam o ponto final do tratamento.
Imagine uma pessoa que melhora significativamente o equilíbrio em um ambiente controlado, mas continua evitando sair sozinha porque não se sente segura nas ruas do bairro.
Ou uma criança que realiza uma habilidade comunicativa durante uma atividade estruturada, mas ainda não consegue utilizá-la para participar de uma brincadeira com outras crianças.
O resultado clínico existe. A mudança funcional talvez ainda não.
Isso não torna o primeiro resultado menos importante. Significa apenas que ele faz parte de uma história maior.
A própria Organização Mundial da Saúde coloca o funcionamento no centro da reabilitação. O objetivo não é olhar apenas para uma condição de saúde ou para alterações de funções e estruturas do corpo, mas compreender como tudo isso interfere naquilo que a pessoa consegue fazer e em sua participação na vida cotidiana.
O mais importante é compreender o impacto dessa mudança na vida da pessoa.
Uma evolução clínica ganha ainda mais significado quando amplia possibilidades: participar de uma conversa, realizar uma atividade com mais autonomia, voltar a frequentar determinado lugar ou se envolver em situações que antes eram evitadas.
É aqui que a CIF muda a perspectiva
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, a CIF, propõe uma compreensão de saúde que vai além do diagnóstico ou do déficit.
Ela considera diferentes dimensões do funcionamento, incluindo funções e estruturas corporais, atividades, participação e fatores ambientais.
Na prática, isso nos convida a ampliar o olhar.
Uma dificuldade para caminhar pode envolver força ou equilíbrio, mas também pode significar não conseguir chegar sozinho ao trabalho.
Uma dificuldade de comunicação pode envolver aspectos específicos de linguagem ou fala, mas também pode aparecer na impossibilidade de contar uma história, pedir ajuda ou conversar com colegas.
Uma dificuldade motora pode aparecer durante uma avaliação, mas ganhar outro significado quando impede uma criança de participar das brincadeiras no recreio.
A CIF não elimina o olhar para o déficit.
Ela ajuda a colocá-lo em contexto.
E talvez uma das distinções mais interessantes seja justamente aquela entre capacidade e desempenho.
De forma simplificada, podemos pensar em capacidade como aquilo que uma pessoa consegue fazer em determinadas condições e desempenho como aquilo que ela efetivamente faz em seu ambiente habitual. A CIF reconhece que o ambiente pode facilitar ou dificultar esse funcionamento.
Isso explica algo que provavelmente todo profissional da reabilitação já observou:
“Na terapia ele consegue, mas em casa não faz.”
Essa frase não deveria necessariamente ser entendida como falta de colaboração, esforço ou generalização.
Ela pode ser uma informação clínica importante.
O que existe na sessão que facilita aquele desempenho?
O que existe fora dela que dificulta?
A tarefa faz sentido naquele contexto?
Existem oportunidades para utilizá-la?
O ambiente ajuda ou cria novas barreiras?
A estratégia funciona dentro da rotina daquela pessoa?
Às vezes, avançar no tratamento envolve menos treinar uma nova habilidade e mais compreender por que uma capacidade já presente ainda não aparece na vida real.
Mas, afinal, quem define o que é melhora?
Essa pergunta não tem como resposta “o profissional” ou “o paciente”.
Uma meta verdadeiramente compartilhada nasce do encontro entre diferentes conhecimentos.
O profissional traz seu raciocínio clínico, conhecimento técnico, evidências, experiência, possibilidades terapêuticas e critérios de segurança.
A pessoa atendida e, quando pertinente, sua família trazem algo que nenhuma avaliação consegue fornecer sozinha: o conhecimento sobre a própria vida.
Sabem quais situações são mais difíceis.
O que incomoda mais.
O que deixou de ser feito.
O que gostariam de voltar a fazer.
O que é prioridade agora.
E até aquilo que, apesar de parecer importante para quem observa de fora, não tem tanta relevância para aquela pessoa naquele momento.
A construção compartilhada de metas procura justamente aproximar esses dois conhecimentos. Revisões sobre estabelecimento de metas em reabilitação apontam para o valor da participação ativa dos pacientes no processo e para a importância de resultados pessoalmente significativos.
Isso não significa abandonar objetivos técnicos.
Significa conseguir responder por que eles importam.
Do déficit isolado para aquilo que a pessoa quer fazer
Compare estas duas formas de pensar uma meta:
“Melhorar força de membros inferiores.”
Agora acrescente uma pergunta:
Para quê?
Talvez a resposta seja:
“Para conseguir levantar do sofá sem ajuda.”
E novamente:
Para quê?
“Para conseguir ficar sozinho em casa com mais segurança.”
Perceba o caminho.
A força continua sendo relevante. Ela pode continuar sendo avaliada, trabalhada e registrada.
Mas agora existe uma conexão entre a intervenção e algo que faz sentido na vida daquela pessoa.
O mesmo raciocínio pode aparecer em diferentes áreas.
Em vez de olhar apenas para “aumentar vocabulário”, podemos perguntar em quais situações aquela criança precisa conseguir se comunicar melhor.
Em vez de apenas “melhorar coordenação motora fina”, podemos investigar quais tarefas do cotidiano estão limitadas por essa dificuldade.
Em vez de “aumentar tolerância a determinada atividade”, podemos compreender qual participação desejamos tornar possível.
A meta técnica não desaparece.
Ela encontra uma direção.
Uma boa meta começa antes de ser escrita
Muitas vezes, começamos a construção de metas tentando encontrar a formulação perfeita.
Específica. Mensurável. Com prazo. Tecnicamente correta.
Tudo isso pode ser útil.
Mas existe uma etapa anterior.
Antes de perguntar “como vamos medir?”, talvez seja necessário perguntar:
“O que vale a pena mudar?”
Algumas perguntas podem ajudar:
O que você gostaria de conseguir fazer que hoje está difícil?
Em quais momentos essa dificuldade mais atrapalha sua rotina?
Se a terapia estivesse funcionando muito bem, o que estaria diferente na sua vida daqui a alguns meses?
Existe alguma atividade que você deixou de fazer ou evita fazer por causa dessa dificuldade?
O que seria uma mudança importante para você ou para sua família neste momento?
No atendimento infantil, essas perguntas também podem envolver a família e, sempre que possível, a própria criança.
Porque prioridades mudam.
Uma habilidade considerada essencial pelo profissional pode não ser a maior dificuldade percebida pela família naquele momento. Da mesma forma, uma queixa inicialmente descrita de maneira ampla pode esconder uma necessidade funcional muito mais específica.
“Quero que ele fale melhor” pode significar:
“Quero que ele consiga me contar o que aconteceu na escola.”
“Quero que ele consiga brincar com outras crianças.”
“Quero que outras pessoas consigam entendê-lo sem que eu precise traduzir.”
Cada resposta aponta para um caminho terapêutico diferente.
Construir metas compartilhadas não significa abandonar o raciocínio clínico
Há também um ponto importante a considerar nessa discussão.
Cuidado centrado na pessoa não significa simplesmente perguntar “o que você quer trabalhar?” e transformar a resposta em um objetivo terapêutico.
O papel do profissional continua sendo essencial.
Há situações em que riscos precisam ser discutidos. Há objetivos que precisam ser divididos em etapas. Há expectativas que precisam ser alinhadas às possibilidades existentes. E há componentes clínicos que talvez não sejam percebidos pela pessoa atendida, mas que são fundamentais para alcançar aquilo que ela deseja.
Compartilhar decisões significa justamente conversar sobre essas relações.
Se alguém quer voltar a cozinhar sozinho, por exemplo, talvez o plano terapêutico envolva equilíbrio, mobilidade, adaptações ambientais, estratégias cognitivas ou treino de tarefas específicas.
A pessoa ajuda a definir onde quer chegar.
O conhecimento clínico ajuda a construir caminhos possíveis para chegar lá.
Metas também precisam voltar à conversa
Há outro risco comum: construir boas metas no início do tratamento e nunca mais falar sobre elas.
A vida muda.
As prioridades mudam.
O contexto muda.
Aquilo que fazia sentido três meses atrás talvez tenha deixado de ser a principal necessidade hoje.
Por isso, metas terapêuticas não deveriam existir apenas como um campo preenchido no prontuário.
Elas precisam funcionar como referência para o raciocínio clínico.
Estamos avançando em direção ao que combinamos?
Essa meta ainda importa?
O resultado alcançado apareceu fora da sessão?
Alguma barreira nova surgiu?
Precisamos mudar a estratégia ou talvez até mudar a própria meta?
Pesquisas recentes sobre metas centradas na pessoa continuam apontando justamente para desafios de acompanhamento e avaliação ao longo do processo de reabilitação, e não apenas no momento inicial de definição dos objetivos.
Revisar uma meta faz parte de acompanhar o processo com atenção. O planejamento inicial pode ter sido adequado para aquele momento, mas as necessidades, prioridades e condições da pessoa podem mudar ao longo do tratamento.
Talvez a melhor medida de evolução precise caber na vida
Nem toda mudança funcional será capturada por um único teste.
Às vezes, uma evolução aparece quando uma criança participa pela primeira vez de uma brincadeira que costumava evitar.
Quando alguém consegue tomar banho sem pedir ajuda.
Quando uma pessoa volta a frequentar um lugar importante para ela.
Quando uma família percebe que determinada tarefa deixou de ocupar tanto tempo e energia da rotina.
Esses resultados não substituem medidas clínicas objetivas.
Mas também não deveriam desaparecer atrás delas.
A reabilitação acontece justamente nessa ponte entre aquilo que conseguimos observar, avaliar e intervir clinicamente e aquilo que muda na possibilidade de uma pessoa viver, participar, escolher e realizar atividades significativas.
Por isso, uma boa meta terapêutica precisa responder a duas perguntas:
O que queremos modificar?
e
O que esperamos que essa mudança torne possível?
A primeira orienta a intervenção.
A segunda nos lembra por que ela importa.
No fim, não basta perguntar se o paciente melhorou.
Precisamos perguntar:
melhorou em quê, para quê e para quem?
É quando conseguimos responder a essas perguntas que a meta deixa de ser apenas uma frase no plano terapêutico e passa a representar aquilo que deveria orientar todo o processo: uma mudança que faça sentido na vida real.
Fontes e referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF).
- https://www.who.int/standards/classifications/international-classification-of-functioning-disability-and-health
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Rehabilitation.
- https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/rehabilitation
- Rose A, Rosewilliam S, Soundy A. Shared decision making within goal setting in rehabilitation settings: A systematic review. Patient Education and Counseling. 2017.
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27486052/
- Kang E et al. Person-Centered Goal Setting: A Systematic Review of Intervention Components and Level of Active Engagement in Rehabilitation Goal-Setting Interventions. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2022.
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34375632/
- Crawford L et al. Facilitators and barriers to patient-centred goal-setting in rehabilitation: A scoping review. Clinical Rehabilitation. 2022.
- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9574028/